segunda-feira, 8 de junho de 2015

Através do meu pai

Daqui há 2 dias já são 7 meses. 7 meses que meu pai voou. Eu nunca quis que esse fosse um blog de tristeza, e sim de homenagem. Por isso enquanto eu era só tristeza optei por deixar ele de lado.
Pode parecer estranho, mas quero falar sobre a generosidade desse momento. A cada dia aprendo algo novo, como um escultor perfeccionista não me canso de me fazer novos traços mais humanos, mais detalhados. Por muitos momentos enxerguei o mundo como se tivesse abrindo os olhos pela primeira vez.
Aprendo a ser a filha que minha mãe precisa que eu seja e ajudo ela a encontrar a mãe que preciso que ela seja, aprendo todos os dias a ter fé (parece fácil mas é um ponto interno bem difícil de encontrar), tenho estudado a paciência, entendido a importância de andar e parar quando for preciso, entendi que não deve haver pudor em se afastar de quem nos fere, me conecto com as ações que sei que vim realizar aqui nesse mundo.

A vida não se tornou uma estrada menos tortuosa desde que meu pai voou, mas eu vesti sapatos que tornam essa estrada mais fácil de se atravessar (além de estar vestida com as roupas e armas de Jorge)

E tudo isso, sei, foi através da minha força, enfrentamento, dos encontros com pessoas que me iluminaram. Mas antes de tudo, foi através do meu pai.

Sinto a partida dele, sofrimento inevitável e que não encontra mais espaço para poesia.  Mas agradeço os elementos que foram deixados para eu aprender e crescer com essa dor.
Ainda quero falar sobre encontros bem específicos através do que meu pai deixou, como a doação de livros da biblioteca dele e outros livros que saltaram aos meus olhos como se ele estivesse me indicando um caminho novo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

eu não posso mover o mundo

Há aridez a minha volta, aridez instalada, já cria vincos no meu chão.  
Às vezes me lembro, e a dor de lembrar me transborda.                                                  

Afundo na terra pesada. 
Volto para a superfície para respirar, e para o vento deixar meu pranto cair. 
No solo. 
Quero regar o solo, fazer nascer flores, mas minhas lágrimas não são semente, e não são chuva. 
Quero fugir, ir até a neve, mergulhar entre o branco de um chão e o azul do céu, mas meus braços não são asas. 
Iria longe, moveria paisagens, 
mas a vida tem me roubado a poesia;
braços são braços apenas, lágrimas são água e sal. E de tanto tentar poesia na dor e cair, cair, cambaleando frente a ela permaneço, árida, crua e imóvel. 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014








Papai na infância, o medo da morte ou uma certa premonição.


Eu pensava que meu pai fosse morrer em um sábado.
Eu ouvia “construção” do Chico Buarque e meu peito apertava,
Comia o feijão com arroz do fim de semana, com ele na mesa, e esse medo nas minhas costas.
Pensava que ele ia morrer atrapalhando o tráfego.
Nem tinha idade ainda para entender do que falava a música,
E que na música o rapaz cai de um prédio.
Devia ter uns 8 anos.
Eu era uma criança paranoica.
Meu pai era professor, não era pedreiro, desses que constroem prédios.
Ele construía conhecimento.
Ele atravessava ruas com um passo tímido.
Ele deve ter caído no chão.
Morreu em uma segunda-feira,  na rodoviária.
...no meio do passeio público.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014




Quando eu era adolescente, nas férias da faculdade, decidi fazer um pequeno mochilão por alguns países da Europa: tinha um amigo morando em Londres, a irmã de uma amiga em Paris e em Roma eu ficaria em um hotel qualquer. Bem comum. Exceto pelo  fato de decidir isso um mês antes de ir. Minha mãe morreu de medo, meu pai me deu apoio total. Consegui um trabalho temporário para pagar as despesas da viagem e ele me “emprestou” o dinheiro da passagem,  pude pagar com mais um trabalho temporário que peguei nas férias seguintes. Depois dessa decisão meu pai começou a dizer que era “meu fã número 1”.
Cheguei na Europa por Paris e peguei um trem para Londres, completamente sozinha, ali ninguém me encontraria. No meu mp3 por acaso tocava essa música “daughters” do John Mayer e eu pensava no meu pai e chorava muito. Chorava não sabia ao certo porque, talvez pela liberdade que eu tinha conquistado, encantadora e assustadora. Talvez porque ali eu tinha deixado de ser a menininha que ele abraçava e chamava de “amiguinha”. Era só nele que eu pensava, e chorava. (Em um texto que escrevi na ocasião eu dizia "Eu escolhi, a viagem, conhecimento, auto conhecimento. Ninguém sabe onde estou. Meu nariz é meu"
Hoje, 7 anos depois, quem partiu foi ele. Sem nenhum aviso, sem chance de nos prepararmos. Está agora e eternamente como eu estive por momentos: livre, irrastreável. Talvez aquele trem estivesse me preparando, por isso chorei pensando nele. Talvez algo em mim já soubesse que ser adulta implicaria necessariamente na missão dele cumprida por aqui. Talvez ele só precisasse me ensinar a ser humano, e eu aprendi. Então me lembrei dessa música, do que diz a letra dela, do amor que ele plantou em mim,  da adulta completa que me tornei no momento em que soube de sua partida e de como mantê-lo vivo passando seu amor adiante.

"Fathers be good to your daughters
Daugh
ters will love like you do
Girls become lovers who turn into mothers
So mothers be good to your daughters too”

Aqui dou inicio a esse blog para descobrir ainda mais quem era (é) meu pai e quem sou eu através dele.
Duas frases dele pra mim:
"Você precisa escrever mais"
"O importante é ter projetos"
Precisou a tristeza ser um norte para seus conselhos e aqui estou.

Com muito amor,