Papai na infância, o medo da morte ou uma certa premonição.
Eu pensava que meu pai fosse morrer em um sábado.
Eu ouvia “construção” do Chico Buarque e meu peito apertava,
Comia o feijão com arroz do fim de semana, com ele na
mesa, e esse medo nas minhas costas.
Pensava que ele ia morrer atrapalhando o tráfego.
Nem tinha idade ainda para entender do que falava a música,
E que na música o rapaz cai de um prédio.
Devia ter uns 8 anos.
Eu era uma criança paranoica.
Meu pai era professor, não era pedreiro, desses que
constroem prédios.
Ele construía conhecimento.
Ele atravessava ruas com um passo tímido.
Ele deve ter caído no chão.
Morreu em uma segunda-feira,
na rodoviária.
...no meio do passeio público.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Quando eu era adolescente, nas férias da faculdade, decidi
fazer um pequeno mochilão por alguns países da Europa: tinha um amigo morando
em Londres, a irmã de uma amiga em Paris e em Roma eu ficaria em um hotel
qualquer. Bem comum. Exceto pelo fato de
decidir isso um mês antes de ir. Minha mãe morreu de medo, meu pai me deu apoio
total. Consegui um trabalho temporário para pagar as despesas da viagem e ele
me “emprestou” o dinheiro da passagem,
pude pagar com mais um trabalho temporário que peguei nas férias
seguintes. Depois dessa decisão meu pai começou a dizer que era “meu fã número
1”.
Cheguei na Europa por Paris e peguei um trem para Londres,
completamente sozinha, ali ninguém me encontraria. No meu mp3 por acaso tocava
essa música “daughters” do John Mayer e eu pensava no meu pai e chorava muito.
Chorava não sabia ao certo porque, talvez pela liberdade que eu tinha
conquistado, encantadora e assustadora. Talvez porque ali eu tinha deixado de
ser a menininha que ele abraçava e chamava de “amiguinha”. Era só nele que eu
pensava, e chorava. (Em um texto que escrevi na ocasião eu dizia "Eu escolhi, a viagem, conhecimento, auto conhecimento. Ninguém sabe onde estou. Meu nariz é meu"
Hoje, 7 anos depois, quem partiu foi ele. Sem nenhum aviso,
sem chance de nos prepararmos. Está agora e eternamente como eu estive por
momentos: livre, irrastreável. Talvez aquele trem estivesse me preparando, por isso chorei pensando nele. Talvez algo em mim já soubesse que ser adulta implicaria necessariamente na missão dele cumprida por aqui. Talvez ele só precisasse me ensinar a ser humano, e eu aprendi. Então me lembrei dessa música, do que diz a
letra dela, do amor que ele plantou em mim, da adulta completa que me tornei no momento em
que soube de sua partida e de como mantê-lo vivo passando seu amor adiante.
"Fathers be good to your
daughters Daughters will love
like you do
Girls become lovers
who turn into mothers So mothers be good
to your daughters too”
Aqui dou inicio a esse blog para descobrir ainda mais quem era (é) meu pai e quem sou eu através dele.
Duas frases dele pra mim:
"Você precisa escrever mais"
"O importante é ter projetos"
Precisou a tristeza ser um norte para seus conselhos e aqui estou.