sexta-feira, 26 de dezembro de 2014








Papai na infância, o medo da morte ou uma certa premonição.


Eu pensava que meu pai fosse morrer em um sábado.
Eu ouvia “construção” do Chico Buarque e meu peito apertava,
Comia o feijão com arroz do fim de semana, com ele na mesa, e esse medo nas minhas costas.
Pensava que ele ia morrer atrapalhando o tráfego.
Nem tinha idade ainda para entender do que falava a música,
E que na música o rapaz cai de um prédio.
Devia ter uns 8 anos.
Eu era uma criança paranoica.
Meu pai era professor, não era pedreiro, desses que constroem prédios.
Ele construía conhecimento.
Ele atravessava ruas com um passo tímido.
Ele deve ter caído no chão.
Morreu em uma segunda-feira,  na rodoviária.
...no meio do passeio público.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014




Quando eu era adolescente, nas férias da faculdade, decidi fazer um pequeno mochilão por alguns países da Europa: tinha um amigo morando em Londres, a irmã de uma amiga em Paris e em Roma eu ficaria em um hotel qualquer. Bem comum. Exceto pelo  fato de decidir isso um mês antes de ir. Minha mãe morreu de medo, meu pai me deu apoio total. Consegui um trabalho temporário para pagar as despesas da viagem e ele me “emprestou” o dinheiro da passagem,  pude pagar com mais um trabalho temporário que peguei nas férias seguintes. Depois dessa decisão meu pai começou a dizer que era “meu fã número 1”.
Cheguei na Europa por Paris e peguei um trem para Londres, completamente sozinha, ali ninguém me encontraria. No meu mp3 por acaso tocava essa música “daughters” do John Mayer e eu pensava no meu pai e chorava muito. Chorava não sabia ao certo porque, talvez pela liberdade que eu tinha conquistado, encantadora e assustadora. Talvez porque ali eu tinha deixado de ser a menininha que ele abraçava e chamava de “amiguinha”. Era só nele que eu pensava, e chorava. (Em um texto que escrevi na ocasião eu dizia "Eu escolhi, a viagem, conhecimento, auto conhecimento. Ninguém sabe onde estou. Meu nariz é meu"
Hoje, 7 anos depois, quem partiu foi ele. Sem nenhum aviso, sem chance de nos prepararmos. Está agora e eternamente como eu estive por momentos: livre, irrastreável. Talvez aquele trem estivesse me preparando, por isso chorei pensando nele. Talvez algo em mim já soubesse que ser adulta implicaria necessariamente na missão dele cumprida por aqui. Talvez ele só precisasse me ensinar a ser humano, e eu aprendi. Então me lembrei dessa música, do que diz a letra dela, do amor que ele plantou em mim,  da adulta completa que me tornei no momento em que soube de sua partida e de como mantê-lo vivo passando seu amor adiante.

"Fathers be good to your daughters
Daugh
ters will love like you do
Girls become lovers who turn into mothers
So mothers be good to your daughters too”

Aqui dou inicio a esse blog para descobrir ainda mais quem era (é) meu pai e quem sou eu através dele.
Duas frases dele pra mim:
"Você precisa escrever mais"
"O importante é ter projetos"
Precisou a tristeza ser um norte para seus conselhos e aqui estou.

Com muito amor,